Por Sérgio Madeira, diretor técnico da Associação Brasileira de Importadores e Distribuidores de Produtos para Saúde (ABRAIDI)
Quando se fala em segurança do paciente, é comum pensar no momento do procedimento, na atuação do médico ou nos equipamentos utilizados. Mas existe uma etapa anterior, silenciosa e essencial, que precisa receber a mesma atenção: o processamento dos dispositivos médicos de uso cirúrgico, nas Centrais de Material e Esterilização (CMEs).
Limpeza, desinfecção, esterilização, inspeção e rastreabilidade não são etapas meramente operacionais. Elas fazem parte de uma cadeia de segurança que precisa funcionar de forma integrada. Uma falha nesse percurso pode comprometer a funcionalidade de um dispositivo, reduzir sua vida útil, gerar custos adicionais para a instituição e, principalmente, representar risco para pacientes e profissionais.
Nesse processo, as instruções de uso fornecidas pelos fabricantes, conhecidas como IFUs, são ferramentas fundamentais. Elaboradas solidamente, com base em normas internacionais, elas estabelecem parâmetros e recomendações específicas para o processamento de cada dispositivo. Temperatura, pH, qualidade da água, detergentes, limpeza manual de cada item, com escovinhas, com lavadoras automáticas ou ultrassônica, termo-desinfecção, secagem e inspeção são alguns dos aspectos que podem determinar o sucesso ou o fracasso. Esta sequência de etapas, algumas até penosas como a lavagem manual, devem ser de completo domínio dos profissionais da CME, com destaque para os enfermeiros. Não nos enganemos, pois aparentemente simples, estes processos exigem conhecimentos como microbiologia, química, física, ciências de materiais e domínio cada vez maior de tecnologia e automação.
Portanto, conhecimento técnico dos responsáveis pelas CMEs é indispensável. Não basta ter a informação disponível num texto de instruções de manuseio, é preciso saber interpretá-la, incorporá-la num processo de aprendizado incremental e aplicá-la corretamente à realidade do serviço. Ao mesmo tempo, a segurança das IFU não deve ser confundida com excesso de burocracia. São princípios básicos, sustentados pela ciência e pela experiência acumulada dos profissionais, que precisam ser cumpridos com rigor, mas também com agilidade, ética e bom senso. O que ninguém vê, pode matar o paciente.
O conjunto de processos críticos dispõem de ferramentas importantíssimas, os indicadores bacteriológicos e químicos, fitas de identificação e outros testes e mecanismos de controle para verificação das etapas de processamento e identificação de possíveis falhas. O desafio agora é avançar ainda mais em digitalização e automação, tornando os processos mais seguros, ergonômicos, transparentes, rastreáveis e eficientes.
Neste cenário crítico reforçamos a importância da relação entre os serviços de saúde e a cadeia fornecedora. O papel de fabricantes e distribuidores não termina na entrega de um conjunto de dispositivos médicos e respectivas IFUs. Existe uma responsabilidade compartilhada em garantir que as informações técnicas cheguem adequadamente a quem fará o processamento e a utilização desses produtos.
Visitas técnicas, canais permanentes de comunicação e contratos bem estruturados podem contribuir para aproximar esses atores. O diálogo permite esclarecer dúvidas, compreender dificuldades encontradas na prática e buscar soluções que respeitem tanto as normas e recomendações dos fabricantes, quanto a realidade operacional das instituições.
A segurança na CME, portanto, não depende de um único profissional ou de uma única tecnologia. Ela é resultado de conhecimento, processos bem estruturados, informação confiável, acompanhamento e responsabilidade compartilhada. Quanto mais próxima for a relação entre quem desenvolve, fornece, processa e utiliza os dispositivos médicos, maior será a capacidade de transformar aquilo que muitas vezes permanece invisível dentro do hospital em uma etapa efetivamente essencial para a segurança do paciente.









