Sérgio Rocha, presidente da Associação Brasileira de Importadores e Distribuidores de Produtos para Saúde
O setor de dispositivos médicos atravessa um período de profundas transformações, marcado por pressões econômicas, mudanças regulatórias e pela necessidade crescente de alinhamento entre eficiência operacional, qualidade assistencial e integridade institucional. Em 2026, torna-se essencial refletir sobre os desafios estruturais que impactam a sustentabilidade e a competitividade das empresas que atuam nesse segmento estratégico da saúde.
Um dos principais pontos de atenção é a crescente pressão sobre o ciclo de receita. Fornecedores e hospitais convivem com prazos de pagamento cada vez mais longos, retenções de faturamento e entraves administrativos que comprometem o fluxo de caixa e dificultam o planejamento de investimentos. Esse cenário fragiliza a cadeia como um todo e limita a capacidade de inovação, modernização tecnológica e expansão dos serviços.
Outro fator relevante é o avanço dos processos de concentração de mercado, especialmente por meio da verticalização. A integração entre diferentes elos da cadeia, embora possa gerar ganhos de escala e eficiência, também impõe desafios à livre concorrência, à diversidade de fornecedores e à sustentabilidade das pequenas e médias empresas. Esse movimento exige atenção permanente e diálogo institucional para garantir um ambiente equilibrado e transparente.
Somam-se a esse contexto os processos recorrentes de descredenciamento, que afetam diretamente a previsibilidade dos negócios e a continuidade das operações. A ausência de critérios claros, objetivos e alinhados às boas práticas regulatórias gera insegurança jurídica e operacional, ampliando os riscos para empresas que investem continuamente em qualidade, conformidade e capacitação.
Diante desse cenário, torna-se cada vez mais relevante a construção de uma agenda de valor no setor. O fornecimento de dispositivos médicos não pode ser compreendido apenas sob a ótica do preço. Produto, serviço, suporte técnico, rastreabilidade, capacitação profissional e conformidade regulatória são elementos indissociáveis. A valorização desses atributos é fundamental para assegurar melhores resultados assistenciais e relações comerciais mais sustentáveis.
Nesse sentido, a integridade e a ética permanecem como pilares indispensáveis. O fortalecimento dos programas de compliance, a adoção de códigos de conduta e o compromisso com práticas transparentes não são apenas exigências regulatórias, mas fatores estratégicos para a credibilidade do setor. Em um ambiente cada vez mais fiscalizado e competitivo, a confiança torna-se um ativo decisivo.
Além disso, o ambiente regulatório impõe desafios constantes. A necessidade de atualização tecnológica, adequação a normas sanitárias, rastreabilidade e vigilância pós-mercado exige investimentos contínuos e uma gestão altamente especializada. A supressão de benefícios fiscais por meio da Reforma Tributária e de novas Leis Complementares cria um efeito dominó preocupante. Quando o Estado retira incentivos de um setor tão essencial, ele não está apenas “ajustando as contas”, mas sim encarecendo o acesso à saúde na ponta final — para o paciente e para as instituições que já operam com margens apertadas.
O futuro do setor de dispositivos médicos dependerá da capacidade de transformar desafios em oportunidades, consolidando um modelo baseado em valor, inovação, qualidade e integridade. Mais do que fornecedores e contratantes, as empresas precisam se posicionar como parceiras estratégicas da assistência à saúde, contribuindo ativamente para a sustentabilidade do sistema e para a melhoria contínua do cuidado ao paciente.









